Lacunas e equívocos na busca da própria história: erros e conveniências

Há momentos em que faltam informações sobre a ascendência de uma pessoa e ela decide investigar para descobrir sua história. Buscando resolver o problema, passa a usar a imaginação para preencher as lacunas que faltam – método dedutivo. Mas o que se imaginou tem fundamento? O problema é que, na maioria das vezes, a montagem resultante é mais especulação fantasiosa do que um retrato da realidade.

Por Denis Gerson Simões, de Munique – Alemanha.

Na minha infância me recordo de ganhar um quebra-cabeças de 500 peças. Era uma linda paisagem, com um castelo, um lago e uma bela árvore frondosa que fazia quase que uma moldura na fotografia. Tudo seguia bem até que cheguei no momento de montar a parte do lago e da árvore: todas as peças pareciam iguais. Deviam ser mais de 300 pecinhas somente dessa parte da imagem e minha paciência – como toda criança – começou a se esgotar. Resultado: forçosamente alguns pedaços do brinquedo foram colocados nos locais errados na esperança que isso não fizesse a menor diferença. O resultado foi obvio: ficou uma imagem deformada.

Em muitos momentos da vida, numa investigação sobre um fato ou uma história, é possível tomar um caminho próximo da montagem de um quebra-cabeças: ter paciência e colocar as peças no local correto – pelo menos tendo essa intenção – ou simplesmente usar da conveniência para encaixar o brinquedo do modo mais rápido e prático – mas não necessariamente tendo a imagem esperada. É um processo que exige um “modo de fazer” as coisas, uma metodologia. Claro que há situações em que muitos dos pedaços desse conjunto se perderam e é preciso saber driblar essas ausências.

Quando se pesquisa genealogia, história, hábitos de comunidades, patrimônio cultural material e imaterial é a mesma coisa: há métodos possíveis a seguir. Nesse conjunto haverá elementos que estarão faltando, outros de difícil acesso e, neste caso, não se terá a imagem resultante ao final. É uma tarefa muitas vezes hercúlea; contudo, cada nova descoberta pode ser um impulso para ir um pouco mais longe. O problema é quando o “caminho” é equivocado e o resultado não se parece em nada com o que deveria ser. Vejamos um exemplo:

Max estava procurando a história de sua família e encontrou um documento de seu tataravô. Lá, em uma caligrafia de difícil compreensão, ele leu a palavra Frankfurt. Em um pulo de felicidade logo pensou: “minha família provém de uma das mais destacadas capitais econômicas da Alemanha”, e deste fato gerou seu norte. O problema é que o nome Frankfurt é comum a algumas localidades alemãs. Frankfurt am Main é a cidade popularmente conhecida, mas os parentes do Max teriam vindo de Frankfurt an der Oder, na divisa com a Polônia. Devido a uma “peça” errada todo o esforço seguiu uma linha equivocada.

Erros frequentes

“Errar é humano”, como já coloca o ditado popular, e nas pesquisas para conhecer a história de uma comunidade e família isso é mais que frequente. Contudo, há equívocos que se pode evitar desde o início, se afastando de “imagens” irreais. Uma dica simples é “seguir várias pistas”: busque coletar o máximo de informações que se pode ter, como descobrir o dialeto falado por uma comunidade, as características das vestimentas, crendices locais, tipos de festas, nomes comuns nas famílias, entre outras características. Não necessita ter tudo documentado em papel: ida a cemitérios para anotar os textos de lápides, conversar com idosos que conheçam antigos costumes , reparar nos monumentos da cidade e nomes de ruas podem gerar indícios valiosos para sua pesquisa.

A partir das “pistas encontradas” é cruzar os dados para buscar identificar o que se “encaixa” e o que está fora de contexto. O problema está nas pesquisas que não chegam nos dados aprofundados, ficando só no “diziam que” ou “eu acho que”. Exemplo de erro é associar o dialeto falado por uma família na atualidade com o local de onde ela possivelmente veio. O ideal é analisar um conjunto de “pistas”. Se fosse assim quase a totalidade de descendentes de alemães do sul do Brasil teria emigrado do Hunsrück, já que o “Hunsrücker Platt” se tornou quase que língua franca em muitas comunidades de descendentes de germânicos, gerando o Riograndenser Hunsrückisch.

Outro equívoco frequente é se identificar com a cultura de uma região germânica e crer que sua família veio de lá. “Estou me sentindo em casa”, dizem. Se esse sentimento gerasse alguma resultado coerente, após uma Oktoberfest toda a família seria bávara. Acreditar numa realidade não quer dizer que ela seja verdadeira. Novamente essas pessoas optam pelo “eu acho” para responderem suas perguntas. O mesmo vale para os que gostam da cultura da Pomerânia, da Francônia ou dos Sudetos. É preciso saber a diferença entre opção identitária e descendência.

Erros convenientes

Há também momentos em que os equívocos geram retorno melhor à comunidade do que a realidade. A questão é se o erro é de propósito ou sem querer. Pode acontecer por um “tropeço” ou mero engano despretensioso, como no caso espanhol da artista Cecilia Giménez, que ficou mundialmente famosa por ter feito o restauro errado da obra “Ecce Homo”, no santuário de Borja na Espanha, onde a imagem de Jesus acabou parecendo um macaco. Foi um equívoco, sem nenhuma má intensão, que hoje colocou a pequena cidade na rota do turismo europeu, além de geral múltiplos produtos que lucram ao usar a imagem restaurada, que parecia “desastrosa”. No cotexto teuto-brasileiro isso também acontece.

Faz parte desse conjunto de erros despretensiosos muitos pórticos de municípios onde há descendentes de alemães: estas estruturas acabaram adotando uma arquitetura distorcida da dos imigrantes alemães, com esboços de castelos ou torres, por acharem que ficará mais “bonito”. No final, terminam transformando as entradas da cidade em belos pontos turísticos quem em nada tem a ver com a herança local germânica, mas alegram os visitantes.

Também ocorrem gafes com Festas da Cerveja – como se fossem símbolo da cultura alemã – em localidades onde os descendentes vieram da tradição da vinicultura. A própria “cultura” do Brezel também se manifesta nestes eventos, sendo oferecidas as rosquilhas de pão – típicas do sul da Alemanha – em comunidades que tem total relação com o norte: apresentam a tradição de um lugar como sendo de outro (por mais que nada impeça de agregarem algo novo ao cardápio). Mesmo com esses equívocos os festejos acabam fazendo o maior sucesso. Chega um momento em que “voltar aos antigos hábitos”, para “corrigir” tropeços ou falhas, acaba desgostando os próprios moradores da cidade. Melhor deixar como está, por mais que divulgar a informação correta seja sempre indicado.

Mas o exemplo de “erro” mais comum, e que já é feito “errado de propósito”, é transformar qualquer festa teuto-brasileiro em Oktoberfest. Quem não gosta do clima bávaro das festas da cerveja, com decoração que recorde os tradicionais pavilhões da Festa de Outubro de Munique? Antigas comemorações teuto-brasileiras como o Kerb, a Schlachtfest, a Schützenfest, as Festas de Rei e Rainha, entre outras, se transformaram em “pequenas” Oktoberfest, com as mesmas temáticas e indumentárias. E seguindo um processo de “cópia da cópia” acabam por criar tendências novas que agradam a todos os públicos brasileiros, somando ritmos regionais e internacionais. Praticamente tem sucesso garantido, mesmo que se distancie cada vez mais de sua origem.

No fundo o importante é ainda se manter alguma tradição

Como uma vez me disse um colega: “é melhor ter a identidade teuto-brasileira modificada conforme à modinha do que nada dela sobreviver”. Inegavelmente a cultura é dinâmica e mutável. Infelizmente, com a perda crescente da identidade teuto-brasileira junto à população, tende-se a ficar feliz com as migalhas que sobrem desse patrimônio cultural imaterial, que um dia foi pujante na América do Sul.

E antes que se queira listar os culpados, é bom destacar que eles não existem: trata-se de um fenômeno corriqueiro das mudanças humanas. Na montagem desse grande quebra-cabeças que é a herança familiar e cultural dos indivíduos, está sendo preferido por um significativo grupo encaixar as “peças” como que fossem de um mosaico – gerando uma nova figura, descompromissada com a realidade – ao invés de seguir o caminho típico dos encaixes. Contudo, na vida de cada pessoa o que é o “certo ou o errado”?

No final das contas, a identidade que cada um constrói é independente de conceitos históricos e científicos: segue suas percepções, tradições e crenças. Que se possa manter essa patrimônio cultural teuto-brasileiro de alguma forma, nem que seja no bom humor do sotaque forçado, nas torcidas de jogos de futebol da Copa do Mundo e nos sobrenomes de muitas famílias. Espera-se que, em algum momento, como que num ovo que hiberna, alguém redescubra essa história que poderá ser novamente vivida.

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