Teuto-brasileiros: somos um corpo estranho?

Por Denis Gerson Simões, de Munique – Alemanha.

A primeira vez que vim para a Alemanha foi no ano de 2015: um verão com clima agradável que recheei de destinos culturais. Não me parecia estranho eu, um instrutor de danças alemãs residente no Brasil, querer conhecer os meus coirmãos europeus; todavia, para muitos nativos o meu pensamento era algo bem anormal. A cada lugar que eu frequentava haviam olhares de estranhamento; se eu usasse um traje típico germânico ai sim que eu virava o centro das atenções. A minha pessoa combinava no conjunto – a música, a vestimenta, as danças, até mesmo o biótipo físico – menos nacionalidade brasileira. O que estava de errado?

Na mesma viagem, passada já uma semana, cheguei à Munique e estive em um animado encontro de tradicionalistas bávaros: uma Trachtenverein. Tudo estaria normal – com os trajes típicos, músicas, gastronomia – se eu não reparasse na estranha figura de um japonês (sim, um estrangeiro) que estava vestido com Lederhose – calça de couro -, falando um pouco de dialeto local e ainda realizando percussão com colheres de madeira. De acordo com o meu olhar, era uma cena muito estranha. Tinha, com certeza, algo de “errado”. De toda forma, coloquei meu foco em outras coisas. Fui percebendo que, aos poucos, peguei também o instrumento musical – o acordeon que estava ali disponível – e já sai tocando e cantava canções, convidando os demais a dançarem. Nesse momento percebi que, assim como o oriental, eu estava sendo percebido como estranho.

O saldo da viagem foi de muitas trocas de experiência e, conjuntamente, um punhado de sensações de estranhamento. Eu era, inegavelmente, ligado à cultura alemã, por outro lado minha brasilidade também me fazia único e diferente. Ao mesmo tempo estive dentro e fora, incluído e separado, sem saber se me sentia um tanto “em casa” ou como “estranho”.

Quando se transita entre zonas onde é possível se incluir em ambas cria-se, simultaneamente, um sentimento de fazer parte das duas e também não estar em lugar algum. Como lidar com o ponto de vista do que vem de fora e ser aceito pelos que já estão “dentro” de um – ou dos dois – grupo(s)? É algo que constantemente é questionado e não se chega a uma resposta definitiva.

Minha experiência de 2015 se repetiu nos anos seguintes e ainda hoje, estando eu residente em Munique, há claros momentos em que sou visto como “estranho”, mesmo nos segmentos culturais onde por anos estudei. Não é uma questão de volume ou qualidade de conhecimento, de ser mais ou menos competente: é, sim, sentir-se ou não pertencente ao grupo onde se está.

O teuto-brasileiro está em uma linha parecida com a do “ser” e “não ser”. É sim brasileiro – seja por questões de regra de nascimento, seja por atuar como cidadão – e também se percebe como ligado ao contexto germânico; por outro lado, em seu próprio país pode ser chamado por seus compatriotas como “alemão” e na Alemanha ser visto unicamente como latino-americano. É uma pessoa que sente-se como de dupla origem cultural e no cotidiano é identificado como o “diferente”. Parece engraçado, mas quando se trata de formar um ser humano, ter “opções identitárias” limitadas gera menos conflitos, pois tendo uma única opção não há o que escolher e a resposta está dada.

Assim, o teuto-brasileiro, ao completar seus 195 anos de imigração alemã, é visto ainda como corpo estranho dentro da sociedade brasileira e/ou alemã?
Se estiver entre outros descendentes de germânicos a resposta será negativa; entretanto, se visto o volume de brasileiros no geral, os de base teuta serão ainda minoria e estarão segmentados. É necessário ver o ponto de fala, o local de quem está analisando.

O que se percebe a olhos vistos, sim, é que a identidade brasileira se reforça frente à teuto-brasileira. Cada vez mais o sobrenome de sotaque alemão pesa menos e como a pessoa se vê e se comporta torna-se o real diferencial. O mundo das aparências, guiado pelos olhos claros e cabeços loiros – citando o estereótipo -, é meramente superficial. E nesta nova formatação da sociedade brasileira – extensiva ao espaço global – o que vale é o que se realiza e menos o currículo da família. Assim, é bom ter clareza que ter duas bases que moldam a identidade pode ser supérfluo frente aos resultados que esperam de você. Deixei de ser visto como estranho, em muitos casos, na Alemanha não por meu currículo ou histórico familiar: foi sim pela competência no que faço. No fundo, o desconhecido e distinto sempre será, em todo ou em parte, um “estranho”.

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