Identidade alemã no Brasil: estamos preparados para verdades?

As vezes uma informação verdadeira poder ser mais maléfica do que benéfica, levando um trabalho de gerações – mesmo que um pouco equivocado – à nocaute. Mais do que expressar corretamente uma ideia, algumas manifestações culturais se fazem mais importantes por congregar pessoas devido a um ideal comum do que por seguirem corretamente uma cartilha. No Brasil, por exemplo, muitas atividades se colocam como preservadoras da cultura alemã e na prática estão a deturpando. Como falar disso para melhorá-las sem que simplesmente acabe eliminando essas ações? Mesmo distorcidas elas ainda trazem em si identidades e esforços coletivos. Por outro lado, não se pode ser indiferente à falta de informação ou mal entendimento. Estamos preparados para lidar mais com fatos e menos com crenças ?

Se sabe que o problema não é de hoje. Nos anos de 1970, para citar um caso, se caracterizava o rapaz teuto-brasileiro com bermudas verdes, suspensório de grega, chapéus de feltro e fita no pescoço, enquanto que as moças eram identificadas com sainhas curtinhas e tiara florida na cabeça. Era uma imagem que em nada se conectava com a realidade dos descendentes de alemães no país. De lá para cá muita coisa mudou, contudo um ponto segue forte: a vivência dos estereótipos. O “alemão do Brasil” é visto como tomador compulsivo de cerveja, por exemplo, assim como é majoritariamente relacionado ao bávaro da Oktoberfest. São visões fantasiosas que, por incrível que pareça, de tanto serem repetidas acabam se tornando realidade e o próprio descendente de imigrados acaba por acreditar nesse equívoco.

É importante lembrar que os imigrantes germânicos que vieram para o Brasil, em sua maioria oriundos da Renânia, Palatinado, Hessen, Vestefália, Pomerânia – só para pontuar alguns locais – não tinham nada de bávaros. Provavelmente 99% deles nunca tenha ouvido falar em Oktoberfest. Traje típico? Se havia era visto como uma vestimenta social. No fundo eles mais “sobreviviam” na Alemanha do que qualquer coisa, motivo pelo qual deixaram sua terra natal para ir em busca de um futuro melhor – o que não tem nada de heroico, sendo depois algo romantizado para engrandecer a história das famílias teuto-brasileiras.

Mas é importante se perguntar: divulgar essas informações pode tirar o romantismo de quem acredita que, por exemplo, com uma Oktoberfest se preserva a história dos antepassados? Quebrar esse imaginário do “bávaro” como modelo de alemão que veio para o Brasil pode desiludir os descendentes germânicos na América Latina? Estamos preparados para discutir história, memória e identidade? Não se quer interromper o trabalho de muitas comunidades que em suas festas e grupos querem preservar a cultura alemã; todavia, como ajudar as pessoas a entenderem os contextos de onde seus antepassados vieram sem as frustrar?

Querendo ou não, os estereótipos, por mais que tracem uma falsa imagem dos imigrantes germânicos, acabam ainda preservando algumas características dessa comunidade. Como se poderia dizer “é melhor ter uma parte condizente ou ficar sem nada?” Não se tem a resposta a esse problema. A grande questão é localizar o modo de unir educação, cultura, divertimento e memória dos teuto-brasileiros. Não há problema algum em gostar das tradições bávaras ou outra que se desejar; o que se mostra um complicante é erroneamente atribuir características de um grupo étnico à outro.

De todo modo, uma palavra importante neste contexto é “motivação”. Para que ações coletivas ocorram é fundamental que haja um ou mais elementos “motores”, que impulsionem esses membros, caso contrário as atividades ficam somente no âmbito das ideias. Retorno financeiro, diálogo identitário, trabalho social, expressão artística são alguns dos pontos que podem levar pessoas a atuarem juntas, o que não quer dizer que o que contam é verídico. Ter esse motivo pode ser o ingrediente mais difícil para começar ou manter um movimento, com destaque aos sociais, culturais ou comunitários. O que se verifica é que em grupos que estão ligados à tradições germânicas na América Latina há mais motivação do que coerência de discurso. É pensar em como ajustar essa equação.

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