Schuhplattler, o sapateado germânico: contexto e lendas

Para quem procura elementos que simbolizem a cultura alpina, a Schuhplattler não pode faltar na lista de ícones. Esse estilo de dança tradicional presente na Alemanha, Áustria e Itália é repleta de elementos identitários. Está presente tanto em festividades típicas quanto em pontos turísticos para agradar os visitantes, o que também gera um conjunto de debates entre seus praticantes.

Diferentes narrativas buscam explicar o nascedouro do Schuhplattler – que traduzido quer dizer sapateado. Historiadores apontam que outros tipos de sapateados já eram realizados na região alpina desde o império romano, muitos deles ligados a crenças de expulsão de maus espíritos – contudo não faziam uso das mãos para bater nos pés, o que não garantiria uma origem comum. Provavelmente a sua forma atual seja originária do leste dos Alpes e foi ganhando transformações no passar das décadas. No início era uma dança bastante livre – sem figuras previamente organizadas – e de um par só: o rapaz se exibia à dama, como forma de cortejo. Hoje praticamente a participação das moças é secundária – mas não menos chamativa, com giros precisos e rápidos -, tendo a atenção voltada ao grupo de rapazes que executa o sapateado.

Segundo Carlos Rohrbacher, de São Bento do Sul – SC, se poderia comparar o Schuhplattler à dança flamenca, já que ambos utilizam posturas altivas por parte dos dançarinos e estão ligados a tradições regionais. Mais do que um sapateado estético, faz relação à cultura de um grupo étnico, conectado à sua musicalidade e indumentárias.

Sendo um estilo nascido do universo dos camponeses, há muitas elementos da cultura rural e interiorana presentes nas composições atualmente apresentadas. Há uma lenda do século XIX que diz que a Schuhplattler é uma cópia da dança de acasalamento do Auerhahn, uma ave presente nas regiões alpinas, o que justificaria a principal posição de início da música: o rapaz postando os dois braços para cima em ângulo de 90º. Outros colocam que teria vindo do hábito dos homens ficarem sozinhos por longo tempo nas montanhas, cuidando do gado ou caçando, e que seria uma distração sapatear individualmente. O que importa na atualidade, entre ficção e realidade, é que há belas histórias para contar como surgiu essa tradição.

Schuhplattler em Prien, em julho de 2015. Foto: Denis Gerson Simões

Na Europa os grandes focos deste estilo estão na Baviera – com destaque ao Oberbayern -, na Áustria – na regiões de Salzburg e Tirol – e no extremo norte da Itália – no Südtirol. Já na América do Norte e do Sul este estilo vem crescendo, com a formação de grupos de Schuhplattler. Rohrbacher destacou que no Brasil a cidade de Treze Tílias-SC tem tradição de fazer shows no estilo de Schuhplattler e que em outros locais do Brasil, como no Vale do Itajaí e mesmo na Serra do Espírito Santo, o sapateado alpino está ganhando o gosto dos teuto-brasileiros.

Há algumas formas Schuhplattler que não são bem vistas pelas entidades tradicionais voltadas a sua prática. Por exemplo, devido a ser um sapateado relacionado ao homem, o Dirndlplatteln – realizado por mulheres – é alvo de críticas, assim como o feito por crianças muito jovens. Também o Schwuhplattler – focado em dançarinos gays – é polêmico. Há uma preocupação em preservar valores culturais, evitando modificá-los.

E se parece que o debate se foca em quem o dança, está enganado. As discussões sobre o que é certo ou errado fazer no Schuhplattler são amplas e parecem mais duras a medida que são defendidas por grupos tradicionais, como no caso de várias Trachtenverein – associações de trajados. Um ponto bastante tratado – e condenado – é a inclusão do sapateado em marchas com teatros, o que não seria correto por ter caráter de espetáculo turístico. Exemplos dessas coreografias são a Holzhacker – ligada aos lenhadores, onde entram troncos de madeira, serras, machados e, inclusive, um cozinheiros fritando carne na frigideira – e a Watschentanz – um sapateado onde os rapazes parecem que batem no rosto uns dos outros.

Antes de gerar unanimidades, a realização da Schuhplattler mostra-se como um instrumento de preservar valores e histórias, mantendo mesmo nos ambientes urbanos tradições do espaço rural. Jovens e adultos experientes somando bons momentos com música, trajes típicos e cooperação.

Ouça o Boletim Der Hut na Imperial FM com esse tema, com entrevista de
Carlos Rohrbacher, transmitido em 14.03.2019:

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