Migrações: trânsitos e culturas em mutação

Fenômeno que acompanha a humanidade desde tenros tempos, migrar, mudar de lugar e estabelecer-se em uma nova terra é produto de muitos fatores. Não necessariamente se sai de um lugar ruim para ir a outro melhor. Por Denis Gerson Simões.

Em pleno século XXI a sociedade ocidental se mostra em uma crise quanto ao processo de migração. São conhecidos os venezuelanos que deixam sua terra devido à crise econômico, por exemplo, ou os haitianos que saem da América Central depois de uma série de terremotos dizimarem suas cidades, ou os povos que deixam o Oriente Médio para encontrarem novo lar na Europa. Essas pessoas são vistas como problema, pois ingressam em sociedades com culturas diferentes das delas e que também não estão preparadas para recebê-las. Deixa se der um uma questão local para adentrar no contexto da geopolítica.

Nos Estados Unidos da América a questão das migrações apresenta-se como elemento de segurança nacional. A promessa da América aberta do século XIX se inverteu totalmente na atualidade e fecha, no XXI, suas portas aos que querem ingressar no sonho americano (vendido em filmes e séries televisivas). Muros são levantados e estrangeiros são barrados por terra, água e ar. Junto com a justificativa do desiquilíbrio populacional e econômico se soma, desde os anos 2000, o princípio da ameaça terrorista e a necessidade de vigia extrema.

Observando esse cenário do presente pode-se constatar duas questões básicas se comparado ao século XIX: 1) que as percepções sobre migrações mudaram muito nos últimos dois século, transitando de comunidades povoadoras para orda de flagelados; 2) que se associou o processo migratório ao trânsito de pobres e famintos, desconsiderando totalmente aqueles que saíram de sua comunidades por dezenas de outros motivos. Frente esses dois apontamentos pode-se promover um conjunto de reflexões.

Pesquisadores desse enredo apontam que há uma diferença clara entre as migrações nesses dois momentos históricos: enquanto no passado houve o convite para a vinda de imigrantes, como os da Europa e Ásia, a irem à América, nos dias de hoje são as populações que saem de um lugar para outro sem garantia de abrigo ou de acolhida. O que era uma recepção voluntária passou a ser por solidariedade ou mesmo por obrigação. Contudo, o que se pode esperar de consumidores que observam o mundo globalizado? Os mercados não estão abertos? Se os produtos transitam entre as fronteiras, qual o impeditivo entre os indivíduos também o fazerem? Se vende a imagem de um Mickey Mouse da terra da fantasia e logo se diz: “pode comprar nossas imagens, todavia não é permitido que viva conosco”.

Apresenta-se uma falsa ideia de mobilidade internacional, que é permitida somente a quem pode pagar adequadamente por ela. Aporta, aqui, a outra questão: que o imigrante não necessariamente é flagelado em busca de uma vida melhor em outro lugar. Mesmo no século XIX muitos empreendedores, que tinham boa vida na Europa, foram às Américas procurar oportunidades de negócios e novas pontes culturais. A saída de seu local de origem pode ocorrer por motivo de trabalho, de formação familiar, de desejo pessoal ou mesmo pelo espírito desbravador e solidário. Contudo, esse imigrante não vira capa de jornal e nem ganha fama de indesejado.

O que não mudou nesse período foi o estranhamento entre os que chegam e os que já estão naquele destino. Quanto mais distintas culturas mais difícil de haver compreensão da língua, das tradições e dos valores. Gerar uma convivência ordeira é o desejo da maioria, contudo não de todos. Trata-se de um desafio que transpôs o tempo e ainda hoje mobiliza atenção das Nações Unidas. De toda forma fica a dúvida: no passar dos tempos a sociedade festejará a vinda desses imigrantes do século XXI como fez com italianos, alemães, japoneses, entre outros, dos séculos XIX e XX? No fundo, todos se observam como vencedores de uma epopeia.

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