São Nicolau e os “demônios” do período do Natal

Você já ouviu falar do São Nicolau? Na Alemanha é o “Nikolaus, para os “íntimos”. Muitas pessoas o encaram como o Papai Noel mais formal, contudo são realidades bem diferentes.

O São Nicolau original era um bispo católico que viveu onde hoje é a atual Turquia e ele é ligado a muitas lendas. Uma delas diz que o Nikolaus presenteou três irmãs virgens com pepitas de ouro. O motivo? Para que elas tivessem dinheiro para se casarem, evitando que se tornassem “mulheres da vida”. Desse acontecimento teria vindo a ideia de deixar um presente para as pessoas durante a noite. O que ocorreu é que, devido a um conjunto de tradições, foi se formando o hábito de presentear amigos e familiares no período natalino. Durante séculos os costumes foram se ressignificando e moldando o que se conhece na atualidade.

Contudo, o período natalino não era somente o momento de ganhar presentes, mas também de destacar o que fez durante o ano, promover o autojulgamento de suas ações. Uma frase que ainda é comum se escutar no Brasil é que “O Papai Noel vai dar presentes para quem foi comportado durante o ano”. Na prática as tradições germânicas ligadas ao São Nikolau tem bastante esse pensamento moral e relacionada às lendas do inverno: quando o Nikolaus vinha visitar uma casa, atrás dele estavam também os “diabos”. Essas visitas deixavam as crianças com medo, pois junto com o presente (que geralmente era muito pequeno) vinham também os temores sobre o “saldo” das boas ações realizadas no ano.

Na Baviera, por exemplo, esses personagens “demoníacos” do período natalino são os Krampus. Até hoje ele aparece, fazendo barulho, assustando as crianças e seguindo o São Nicolau.  Ele aparece para castigar as crianças que não se comportam, podendo levá-la embora dentro de um saco, mochila ou cesto. Na prática as pessoas que assumem o personagem do Krampus se fantasiam com roupas bem realistas, com chifres, peles compridas, máscaras assustadoras e grandes guizos e sinos. A ideia era que se ouvisse e visse quando esses personagens lendários estavam próximos da residência, causando medo e “autorreflexão” sobre seus atos.

 E hoje ainda existe a caminhada desses personagens míticos, agora incluindo também crianças fantasiadas. Várias pessoas fazem parte, soando os sons das chibatadas para assustar quem passa na rua… e olha que funciona. Ainda hoje muitas crianças choram ao ver o Krampus. No norte da Alemanha existe um personagem parecido, o Knecht Ruprecht e no Brasil em muitas regiões se mantém o personagem do Pelznickel

É preciso recordar que muitas dessas tradições ligavam lendas pagãs à educação das comunidades. Na época se educava as crianças muito com base no medo e da repressão. Ainda persiste em alguns locais a história do Homem do Saco, um homem maltrapilho e desalmado que vem roubar as crianças que estão vagando pela rua, fora do controle dos pais. Era uma narrativa moral para dizer “não saia de perto de casa”. Contudo, várias dessas historinhas sobrevivem na Europa, como se pode ler no clássico livro Der Struwwelpeter, a venda em grande parte das livrarias. 

Mas o próprio Nikolaus não era assim tão bonzinho, observando pelos olhos da atualidade: enquanto dava um presentinho para os pequeninhos, entregava para os pais uma varinha, para bater nas crianças mal educadas. Tratavam-se de diálogos sobre direitos e deveres, deixando bem claras as possíveis punições frente aos “maus atos”.  Mesmo que as coisas hoje tenham mudado, abdicando de tanta violência moral e física – se comparado ao século passado – as histórias e tradições seculares desses personagens se mantém. De toda forma, em vários locais do mundo já há violência suficiente, mostrada também na televisão, para deixar qualquer um com muito temor de fazer algo errado. O Krampus seria peixe pequeno frente à tantos medos da atualidade.

 

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