Na Época do Natal. Uma história de Jorge L. Kunrath

Leia o texto de Jorge Luiz Kunrath, que trouxe em palavras suas lembranças de infância sobre o Natal. Vale muito a pena!

Para muitos o período que antecede a noite de Natal é igual a qualquer outra época do ano. Para mim, entretanto, é diferente, talvez porque muitas pessoas não tenham vivido o Natal da maneira que vivi. Natal é um tempo especial que me faz lembrar a infância. O Natal era a data mais esperada do ano, havia muita expectativa, pois anunciava a proximidade da chegada do Papai Noel, ou como dizia o pai Paulino, o Pelznickel. Era uma das poucas datas em que se ganhava presente, as outras eram a Páscoa e o aniversário.

Naquele tempo o Natal demorava um tempo enorme para chegar. As aulas haviam terminado no início do mês de dezembro e tínhamos pela frente muitos dias para brincar e esperar a chegada do dia 24. Na última semana de novembro a mãe Herta enfeitava a mesa da sala com a coroa do advento, cuidadosamente feita com cipreste verde e velas, e quatro domingos antes do Natal acendia a primeira das quatro velas. Naquelas semanas que antecediam o Natal o padre da igreja que frequentávamos vinha em nossa casa para ver os preparativos e dar a benção. Lembro que neste período a mãe retirava da gaveta, folhas soltas escritas à mão, algumas em papel de pão, com as receitas dos doces e bolachas que iria preparar.

Não tendo muita coisa para fazer ficávamos na cozinha “ajudando” a mãe. Enquanto ela confeccionava as bolachinhas de Natal, nos “brigávamos” para raspar a bacia com os restos de massa crua ou para colocar os confeitos de chocolate (“cocozinhos de rato”, como chamávamos) sobre as bolachas. Muitas vezes derramando mais no chão do que nas bolachas. Ela também nos dava pedaços de massa para que pudéssemos, nos mesmos, confeccionar nossas bolachas. A melhor parte era sentir aquele cheirinho gostoso que saia do fogão enquanto assavam. Após todo o trabalho a mãe acomodava as bolachas em latas e vidros protegidos com folhas de papel de pão, colocando na parte alta do armário ou escondendo em locais de difícil acesso da cozinha, evitando que pudéssemos pegar, pois só poderiam ser comidos próximo da noite de Natal.

A árvore de Natal era outra atividade especial desta época. O pai pegava a Kombi e junto íamos aos arredores de Porto Alegre comprar o pinheirinho de araucária, árvore de verdade! Sempre queríamos que ele levasse a maior, algumas vezes era até difícil colocar dentro da Kombi.

Montar a árvore era outra história. Depois de o pai fixar a árvore dentro de uma lata e colocar no lugar, a mãe retirava do armário os enfeites, delicadas bolas de vidro, lindamente fabricadas e com um brilho intenso. A mãe dizia – “estas bolinhas foram compradas na Wanda Hauck que fica na frente da oficina mecânica do pai na Rua Câncio Gomes”. Queríamos de toda forma ajudar a montar a árvore e não passava um Natal sem que quebrássemos várias bolinhas. Além das bolinhas de vidro o pinheirinho era decorado com algodão branco e velas de verdade, que só eram acesas na noite de Natal. Lembro-me do pinheirinho ter pegado fogo em várias oportunidades devido às velas. Havia também um antigo jogo de luzes, com lâmpadas incandescentes em forma de pera que esquentavam bastante e que davam o clima de Natal quando as luzes da sala eram apagadas. Todos ajudavam a montar o presépio, um arrumando um espelho quebrado para fazer o lago, outro amassando papel de embrulho para construir a gruta do menino Jesus ou colorindo serragem para fazer os campos e a estrada.

Durante os dias que antecediam a noite de Natal eu ficava junto ao pinheirinho, todo iluminado, sentindo aquele cheiro de pinho, pensando como era o Papai Noel, onde morava, como conseguia chegar a todas as casas, e claro, o que ele iria trazer. Nestes dias o pai vinha com um livro com canções em alemão e pedia que ensaiássemos melodias como Stille Nacht, Heilige Nacht, O du Fröhliche e O Tannenbaum. Para sua frustração na maioria das vezes não conseguia.

Invariavelmente, no dia 24 de dezembro, tínhamos de tomar banho, às vezes todos juntos na banheira, com água que tinha sido esquentada na chaleira. A mãe, com grande trabalho, conseguia nos secar e colocar uma roupa bonita para esperar a chegada do Papai Noel.

Eu ficava deitado no sofá olhando o colorido das luzes e das bolinhas, pensando que o Papai Noel poderia aparecer naquele instante. Fechava os olhos para fingir que estava dormindo, e com isto enganar o Pelznickel. Não entendia porque sempre que chegava perto da hora do Papai Noel chegar tínhamos de ir, contra a vontade, para a cozinha comer alguma coisa ou quando o pai insistia que todos deveriam ir para o quarto cantar “Noite Feliz” para que o Pelznickel pudesse ouvir e vir na nossa casa. Curiosamente, sempre que o Papai Noel passava o pai ou a mãe não estava por perto. Eles sempre tinham uma desculpa… “ a mãe esta preparando a comida”… “o pai foi fechar a porta dos fundos…” e várias outras. Quando já não aguentávamos mais cantar ou esperar na cozinha éramos liberados, e como uma manada, corríamos para a sala para tentar pegar o Papai Noel colocando os presentes. Quando víamos os presentes sob a árvore esquecíamos tudo. Cada um de nós ganhava, apenas, um presente que era acompanhado das bolachinhas que haviam sido entregues pela mãe para o Papai Noel deixar. Após, íamos a Missa do Galo que começava a meia noite. Se, por qualquer motivo não fossemos a missa do Galo, inevitavelmente, na manha seguinte toda a família ia a igreja para agradecer.

Nos dias que se seguiam, saíamos à rua, brincar, e orgulhosos de nossos presentes, mostrar para os amigos. Em um determinado Natal ganhei uma prancha de isopor para usar na praia (planonda), como era meu único presente, fiquei escorregando na grama da frente de casa até o dia que fomos para a praia.

Ainda com 10 ou 11 anos questionava os amigos que diziam que Papai Noel não existia. Os argumentos e as analogias me fizeram, frustrado, compreender que ele realmente não existia.

Bem, não importa se Papai Noel não existe, para mim ele continua existindo nas lembranças daqueles natais. Só quem viveu a infância com Natais deste tipo, pode ter estas lembranças maravilhosas.

Obrigado Herta e Paulino.

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