A Banda Treml de São Bento do Sul-SC

Um dos símbolos da cidade de São Bento do Sul, o conjunto instrumental mantém características vindas com os imigrantes alemães.

Por Elisangela Leitzke e Denis Gerson Simões

Quando se pensa em comunidade alemã no Brasil vem à mente a imagem de pessoas trabalhadoras, persistentes, que gostam de espaços floridos e que fazem música. Alguns desses ícones podem não ser reais, porém a questão musical é inegável: os teuto-brasileiros tem como valor a preservação do canto e das melodias instrumentais, mantendo a tradição de corais e de bandas nas colônias na América Latina.

Em São Bento do Sul um grande exemplo desta cultura musical sobrevive ao tempo e mantém forte a identidade alemã na região: a Banda Treml. “São 104 anos de história, 5 maestros, mais de 400 integrantes que fizeram parte da Banda Treml. Acima de 1000 músicas compõem o repertório, algumas muito antigas, trazidas ainda pelos imigrantes. Atualmente são 33 componentes com idades entre 15 e 75 anos”, destacou o seu regente, Luis Francisco Kamienski. O Boletim Der Hut teve a honra de conversar com ele, que entrou em 1979 na Treml e assumiu sua regência em 2012.
Nas primeiras levas de imigrantes vindos da Europa para São Bento do Sul, que foi fundada em 1873, muitos eram músicos e trouxeram consigo seus instrumentos. Até hoje se mantém a tradição musical na cidade. Ao longo dos anos houve diversas mudanças em relação ao repertório do conjunto, no que diz respeito à comunicação com o público e com a comunidade. Uma dessas alterações resultou “na entrada de mulheres na banda, em 1995, e na viagem para a Alemanha em 2001”, disse Kamienski. O que não se alterou foi a integração da comunidade com a Banda. Como enfatiza o regente, há “fila de espera de jovens músicos aguardando vaga para realizar seu sonho musical. Somos bastante apoiados pela comunidade, tanto por sua presença em nossos eventos quanto pelo auxílio financeiro para projetos.”

São poucos os grupos instrumentais que mantém as tradições musicais alemãs da forma como a Banda Treml o faz, ainda com formações típicas e a presença de um regente. Um diferencial do conjunto foi o fato do sobrenome dos líderes dar nome ao grupo. Foi assim com os dois irmãos da recém-formada Banda Augustin; continuou ao transformar-se em Banda Zipperer e, em 1913, em Banda Treml. A designação não mudou mais quando foi definido que se manteria o nome Treml em homenagem aos regentes João e Affonso de uma mesma família, que ocuparam o posto até 1980. Até 1993 Mathias Herzer foi o maestro. Depois o foi Pedro Machado de Bittencourt. Em 2012 Luis Francisco assumiu e permanece na regência.

Em sua história tem uma extensa lista de trabalhos e gravou entre 1961 e 1992 nove LPs. O décimo foi lançado nas comemorações do centenário em 2013. Para se adaptar aos modernos meios tecnológicos toda a discografia foi remasterizada e digitalizada. Segundo o regente, a agenda do grupo é movimentada “tocamos tanto em festividades da cidade como em festas particulares, aniversários, casamentos, bodas de prata e de ouro”. Além disso, já participaram de incontáveis eventos em diversos estados do país.

E as relações com a Alemanha não ficam só no estilo musical: são vividas nas amizades internacionais. A Treml mantém contatos com grupos amigos em Baden-Württemberg e na Baviera, promovendo visitas como ocorreu em 2001, assim como os alemães também vêm ao Brasil. A Banda está organizando nova tournée pela Europa para 2018 e o regente destaca: “Os últimos dias serão dedicados à visitas na região do Böhmerwald, finalizando a viagem em Praga. A intenção é conhecer os locais de origem das famílias pioneiras de São Bento do Sul.”

Entrevista com o regente Luis Francisco Kamienski:

Entrevista com Luis Francisco Kamienski, componente da banda desde 1979 e regente desde 2012. Atualmente ele tem 38 anos de participação na banda. O que nas palavras dele „é algo totalmente normal em nosso grupo. Meu pai participou durante 46 anos, e muitos músicos chegaram à marca de 60 anos!“

São Bento do Sul foi fundada em 1873, entretanto, continuou recebendo imigrantes de várias regiões da Europa até meados da década de 1950. Porém, o que influenciou fortemente a parte cultural de nossa cidade foi a chegada dos primeiros imigrantes, no início da colonização. Sendo que o primeiro grupo de 70 famílias que chegou era originário do Böhmerwald, de Reichenberg e do Bayrischer Wald.

Vilarejos como Flecken, Rothenbaum, St. Katharina, Eisenstein e Hammern, entre outros desta região, são os locais de origem de várias famílias que para cá emigraram nas décadas de 1870 e 1880. Portanto, muito antes do final da Segunda Guerra Mundial quando houve a grande expulsão dos boêmios alemães da recém-formada Tchecoslováquia.

Muitos destes imigrantes eram músicos e trouxeram seus instrumentos, a grande maioria de sopro. Logo no início da colonização de São Bento do Sul foi formada uma bandinha, para animar os festejos locais.

O sobrenome dos 2 irmãos que lideraram o grupo foi usado como nome para o conjunto recém-formado: Banda Augustin. Esta tornou-se Banda Zipperer quando Jorge Zipperer assumiu a direção. Em 1913 ele construiu uma serraria onde hoje é a cidade de Rio Negrinho e ali foi morar – distante cerca de 20kms de São Bento do Sul. Na época, à cavalo ou na carroça, era uma distância muito grande, o que inviabilizou sua permanência na banda.

Como já haviam assumido um compromisso para tocar na festa do trabalhador em 1º. de maio daquele ano, o jovem João Treml, filho do imigrante Jakob Treml – natural de Rothenbaum -, reuniu os companheiros para honrar esse contrato. Como era tradição na época, o grupo passou a se chamar Banda Treml e até hoje nunca parou suas atividades.

São 104 anos de história de forma ininterrupta. Em 1933 os filhos de João Treml ingressaram na banda: Alexandre, Affonso e Ervino. Trouxeram consigo alguns amigos que vieram a substituir membros mais antigos, estes já estavam parando de tocar. A partir de 1940 Affonso, mais conhecido pelo apelido de “Xerife”, passou a auxiliar o pai, João, na regência da banda.

Em 1968 faleceu o fundador João Treml. Em 1980 faleceu o Xerife. Ervino já havia se afastado da banda há alguns anos. Alexandre – professor de clarinete – ainda permaneceu mais algum tempo, no entanto, não quis assumir a regência, visto que já tinha muita idade na ocasião e não conseguia mais acompanhar o ritmo da banda.

Foi convidado a ser maestro o já músico da banda Mathias Herzer, filho de pais austríacos. Nessa época muitos músicos mais velhos saíram da banda, que só não encerrou as atividades devido à entrada de novos integrantes. Eram jovens oriundos da Escola de Música Donaldo Ritzmann, de São Bento do Sul. Passados os anos de luto pelo falecimento do icônico Xerife, a banda voltou a crescer e retomou uma série de apresentações por todo o sul do Brasil. Em 1993 Mathias decidiu se afastar da banda.

Sem maestro e com alguns compromissos importantes assumidos, foi feito convite a Pedro Machado de Bittencourt. Autor do hino de São Bento do Sul e regente de corais, ele assumiu a direção da banda. Foi o único maestro que não fez parte do grupo anteriormente ao convite. A mudança resultou numa série de concertos, nos quais foram apresentadas músicas do repertório clássico, além das tradicionais peças do repertório alemão e austríaco.

Pedro também inaugurou uma nova era no que diz respeito à comunicação com o público, e com a comunidade em geral. Disto resultou a entrada de mulheres na banda em 1995, já que até então o grupo era composto exclusivamente por homens. Hoje 5 mulheres fazem parte da banda. Esse novo tempo trouxe ainda a viagem para a Alemanha em 2001. Em 2012 Pedro se afastou da banda, devido a uma enfermidade.

A programação para as comemorações do centenário já estavam em andamento. Foi efetuado convite a mim, Luis Francisco Kamienski, componente da banda desde 1979 para assumir a regência.

Assim sendo, hoje são 104 anos de história, apenas 5 maestros e mais de 400 pessoas que fizeram parte da Banda Treml. Acima de 1000 músicas compõem nosso repertório, algumas muito antigas, trazidas ainda pelos imigrantes. Atualmente somos 33 componentes com idades entre 15 e 75 anos.

Ao longo destes anos e de toda essa história comemoramos alguns sucessos. Em 1961 foi gravado o 1º. LP com músicas de compositores do Böhmerwald e da região de São Bento do Sul. Em 1963 foi lançado o 2º. somente com polcas, quase todas do Böhmerwald e do Egerland.

Em 1964 foram gravados o 3º. e o 4º. LPs com músicas cantadas no dialeto Bayrisch pelos irmãos Affonso e Ervino Treml. As gravações foram retomadas na década de 70, dando sequência aos próximos discos. Depois de um intervalo foi gravado o 9º. em 1992. E nas comemorações do centenário em 2013 foi lançado o 10º. LP, este contendo somente músicas de autores de nossa região.

Em 2013 fizemos a remasterição e digitalização de toda a discografia da Banda Treml e adotamos a prática de filmar nossos concertos anuais, sendo que tanto os vídeos quanto os CDs podem ser adquiridos pelo público.

Temos anualmente uma agenda bastante movimentada. Em janeiro e fevereiro tocamos as Retretas de Verão na praça central de São Bento do Sul, às quartas-feiras à noite. Evento este criado pelo maestro Xerife em meados da década de 1940 e mantido até hoje pela prefeitura. Em abril participamos da tradicional Festa do Rei do Tiro fundada em 1895, da Sociedade Atiradores 23 de Setembro, local sede da Banda Treml. Em julho temos a Stammtischfest, também na praça central. Em setembro ocorre a tradicional Schlachtfest na Sociedade Ginástica e Desportiva São Bento, cujo início é realizado em missa na Igreja Matriz com participação da Banda Treml e do Coral Santa Cecília – ambos fundados por João Treml -, além do Grupo Vocal A4. Depois seguem as festividades durante 3 dias, com muitas atividades, incluindo bailes e desfile. Durante o ano todo tocamos em festas particulares como aniversários, casamentos, bodas de prata e de ouro. Além disso, eventualmente tocamos um repertório específico acompanhando o enterro de ex-componentes da banda. Essa tradição se iniciou com os pioneiros e é mantida até hoje.

Isso me lembra um momento triste do nosso conjunto: em 1965 ocorreu uma tragédia lamentável. Retornando da Feira da Providência no Rio de Janeiro, o ônibus que transportava a banda sofreu um grave acidente na altura de Registro em São Paulo. O motorista faleceu no local, e diversos músicos tiveram ferimentos graves. O próprio maestro Affonso “Xerife“ Treml foi seriamente afetado, tendo como resultado uma perna encurtada. Tanto o acidente quanto o falecimento do maestro em 1980 foram eventos que puseram a resistência dos membros à prova. O abalo físico e principalmente psicológico foi enorme. Felizmente a banda sempre foi composta por pessoas de fibra, que de uma forma ou outra souberam dar continuidade à obra do fundador.

Nestes 104 anos o conjunto se apresentou nos estados do RS, SC, PR, SP, RJ e DF tendo participado de incontáveis eventos como Festa da Cerveja, Baile do Chopp, concertos e retretas.

No que concerne ao contato com a Europa, apesar da longa distância, temos vários grupos amigos em Baden-Württemberg e Baviera, os quais nos visitam e são hospedados por nossas famílias. Também nos receberam em 2001 e vão nos receber novamente em 2018.

Tem uma banda de Steinenstadt am Rhein que vem ao Brasil a cada 4 anos. Os músicos programam suas férias para este período da turnê. Estiveram aqui em 2016 e estão programando a próxima viagem para 2020.

Recebemos diversas vezes a banda bávara da região de Wolfratshausen que costumava vir ao Brasil a cada 4 anos. Atualmente não viajam mais para cá, mas nos hospedarão este ano.

Em 2017 recebemos a banda Deggendorfer Stadl Musikanten da Baviera que participou da última edição da Oktoberfest em Blumenau. Eles nos convidaram para visitá-los em 2018.

Além disso, temos amizade com a banda da cidade Markt-Rettenbach do Allgäu. Eles nos receberão novamente em 2018, embora nunca tenham vindo ao Brasil.
Desde o final de 2016 temos recebido a visita do maestro Georg Mirwaill de Deggendorf na Baviera para nos dar auxílio técnico. Isto nos foi proporcionado pela administração do Parque Vila Germânica de Blumenau. Além de ensinamentos, nos trouxe várias músicas novas.

E na última edição da Oktoberfest recebemos a visita do compositor alemão Norbert Gälle no palco. Também ele nos presenteou com músicas de sua autoria.

A própria Banda Treml só realizou uma viagem internacional, pelo sul da Alemanha, em 2001. Em 2018 faremos nova turnê, pela mesma região, sendo que os últimos dias serão dedicados a visitas na região do Böhmerwald, finalizando a viagem em Praga. Nossa intenção é conhecer os locais de origem das famílias pioneiras de São Bento do Sul.

Enfim, percebe-se um orgulho muito grande das pessoas em fazer parte da Banda Treml. Temos jovens músicos aguardando abrir vaga para realizar seu sonho musical. Somos bastante apoiados pela comunidade da cidade, tanto por sua presença em nossos eventos quanto pelo auxílio financeiro para nossos projetos.

No passado, empresários em viagem à Alemanha compravam partituras musicais e doavam à banda. Somos muito gratos ao amor de nosso povo pela “nossa banda”, como muitos a definem.

Estamos reencontrando o público de outras cidades, o que nos tem proporcionado agradáveis surpresas. Nos impressionamos com a reação das pessoas às nossas apresentações, tanto de pessoas que já conheciam a Banda Treml, quanto daquelas que nunca tinham sequer ouvido falar.

Costumo falar que o fundador João Treml, bem como seus filhos, teria muito orgulho em ver no que resultaram seus esforços no passado. Respeitamos as tradições, honramos os pioneiros e, acima de tudo, amamos a música.

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